terça-feira, 26 de janeiro de 2010

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Luís André Gasperino

Você pode ficar com a poltrona, se quiser. Mande forrar de novo, ajeite as molas. É claro que sentirei falta. Não dela, mas das tardes em que aqui fiquei sentado, olhando as árvores. Estas sim, eu levaria de bom grado: as árvores, a vista do morro, até a algazarra das crianças lá embaixo, na praça. 0 resto dos móveis são tão poucos! Podemos dividir de acordo com nossas futuras necessidades.

O rádio está tão velho que o melhor é deixá-lo ai mesmo, entregue aos cuidados ou ao desespero do futuro inquilino. Tanto você quanto eu haveremos de ter, mais cedo ou mais tarde, as nossos respectivos rádios, mais modernos, dotados de todos os requisitos técnicos e mais aquilo que faltou ao nosso amor: paixão.

Quanto aos discos, obedecerão às nossas preferências. Você fica com as faixas mais românticas, as canções de fim de tarde, um ou outro clássico. Deixe para mim o canto pungente do astuto Chico Buarque, os sambas antigos e estes chorinhos. Aqueles que compartilhavam do nosso gosto comum serão quebrados e jogados no lixo. É justo e honesto.

Os livros são todos seus, salvo um ou outro com dedicatória. Não, não estou querendo ser magnânimo. Pelo contrario: Ainda desta vez penso em mim. Será um prazer voltar a juntá-los, um por um, em tardes de folga, visitando livrarias. Aos poucos irei refazendo toda esta biblioteca, então com um caráter mais pessoal. Fique com os livros todos, portanto. E consequentemente com a estante também.

Os quadros também são seus, e mais esses vasinhos de plantas. Levarei comigo o cinzeirinho verde. Ele já era meu muito antes de nos conhecermos. Também esta espátula. Veja só o que está escrito nela: a data onde tudo começou. Fique com toda essa quinquilharia acidentalmente juntada. Sempre detestei bibelôs e, mais do que eles, a chamada arte popular, principalmente quando ela se resume nesses bonequinhos de barro. Nada que foi feito com barro presta. Nem o homem.

Rasgaremos todas as fotografias, todas as cartas, todas as lembranças passíveis de serem destruídas. Programas de teatros, álbuns de viagens, tudo. Que não reste nada daquilo que nos é absolutamente pessoal e que não possa ser entre nós dividido.

Fique com a poltrona, seus discos, todos os livros, os quadros, esta jarra. Eu ficarei com estes objetos, um ou outro móvel. Tudo está razoavelmente dividido. Leve a sua tristeza, eu guardarei a minha.

2 comentários:

  1. Assim faz-se o divórcio.

    Exatamente !

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  2. Nusss achei muito foda este lú.
    Parabens mano vc é fera !!!

    E como ja disse alexandre umetsu
    Assim faz-se o Divórcio.

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