quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Pós

De Luís André Gasperino

O coração descompassado,
A insônia ao nascer do dia
Arrependido, a boca seca
A saliva azeda,
O gosto amargo do trago do fel,
Da noite provei.

As injúrias fizeram-se presentes
Não tão incômodas
Quanto o encarar nos olhos dos amigos
Preocupados e descontentes
Fiéis, desolados
Pela sombra que os perseguem

Culpa, medo, desgosto
Um engodo breve
Apenas um instante de lucidez
Que me traga alegria
Que afaste a nostalgia
Ao nascer do dia

Das prosas fustigadas,
Foi-se a verdade.
Juras, mentiras, promessas em vão
Restam apenas dúvidas,
Sentimentos recolhidos
E uma falta de coragem

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Partilha

Luís André Gasperino

Você pode ficar com a poltrona, se quiser. Mande forrar de novo, ajeite as molas. É claro que sentirei falta. Não dela, mas das tardes em que aqui fiquei sentado, olhando as árvores. Estas sim, eu levaria de bom grado: as árvores, a vista do morro, até a algazarra das crianças lá embaixo, na praça. 0 resto dos móveis são tão poucos! Podemos dividir de acordo com nossas futuras necessidades.

O rádio está tão velho que o melhor é deixá-lo ai mesmo, entregue aos cuidados ou ao desespero do futuro inquilino. Tanto você quanto eu haveremos de ter, mais cedo ou mais tarde, as nossos respectivos rádios, mais modernos, dotados de todos os requisitos técnicos e mais aquilo que faltou ao nosso amor: paixão.

Quanto aos discos, obedecerão às nossas preferências. Você fica com as faixas mais românticas, as canções de fim de tarde, um ou outro clássico. Deixe para mim o canto pungente do astuto Chico Buarque, os sambas antigos e estes chorinhos. Aqueles que compartilhavam do nosso gosto comum serão quebrados e jogados no lixo. É justo e honesto.

Os livros são todos seus, salvo um ou outro com dedicatória. Não, não estou querendo ser magnânimo. Pelo contrario: Ainda desta vez penso em mim. Será um prazer voltar a juntá-los, um por um, em tardes de folga, visitando livrarias. Aos poucos irei refazendo toda esta biblioteca, então com um caráter mais pessoal. Fique com os livros todos, portanto. E consequentemente com a estante também.

Os quadros também são seus, e mais esses vasinhos de plantas. Levarei comigo o cinzeirinho verde. Ele já era meu muito antes de nos conhecermos. Também esta espátula. Veja só o que está escrito nela: a data onde tudo começou. Fique com toda essa quinquilharia acidentalmente juntada. Sempre detestei bibelôs e, mais do que eles, a chamada arte popular, principalmente quando ela se resume nesses bonequinhos de barro. Nada que foi feito com barro presta. Nem o homem.

Rasgaremos todas as fotografias, todas as cartas, todas as lembranças passíveis de serem destruídas. Programas de teatros, álbuns de viagens, tudo. Que não reste nada daquilo que nos é absolutamente pessoal e que não possa ser entre nós dividido.

Fique com a poltrona, seus discos, todos os livros, os quadros, esta jarra. Eu ficarei com estes objetos, um ou outro móvel. Tudo está razoavelmente dividido. Leve a sua tristeza, eu guardarei a minha.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Maria, Maria...

De Luís André Gasperino

Com todo respeito às pessoas portadoras do nome “Maria”, mas as “Marias qualquer coisa” estão dominando as ruas da cidade. Primeiramente, não estou generalizando, que fique bem claro. Mas, é fato notório que, em todos os segmentos há mulheres interessadas somente no “estereótipo do personagem”.

Ou seja, popularmente dizendo, são as Marias gasolina, Marias chuteira, Marias microfone e por aí vai...

Toda graça e louvor às mulheres, que ao longo da história lutaram por direitos iguais aos dos homens, com toda razão. Hoje, muito próximas da igualdade em diversos setores da sociedade, provam que são tão quão competentes quanto o sexo oposto. Porém, é deprimente ver um ser tão grandioso e lindo, se prestar a determinadas situações.

Qual será o motivo de grande parte do sexo feminino se importar apenas de forma interesseira com o ‘status’ de seu pretendente ou companheiro?

Sem mais delongas, até a próxima...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

E viva o Circo!



De Luís André Gasperino

As arquibancadas estão lotadas, as pessoas se aglutinam para assistirem ao espetáculo. A multidão está afoita a espera do banal e fútil. É isso aí gente, o Big Brother Brasil voltou!

Pão para todos, festas pra todos, e dali baixaria, e dali "reality show", pro povão esquecer da dívida interna negativa histórica, esquecer dos corruptos em Brasília, dos desvios de dinheiro para os "shows" no Rio de Janeiro, esquecer da saúde pública falida, esquecer de tudo. Até mesmo, de conversar com seu filho, sua filha, seu pai e sua mãe. Agora o assunto nas mesas dos bares é quem vai pro paredão, quem vai ser eliminado, quem vai ficar com quem, quem é a mais gostosa e quem é o saradão. Pobres tolos!

Para muitos, isto pode parecer um discurso retórico e hipócrita, mas não se aflijam, eu posso explicar. Quando estamos inseridos dentro de um sistema, é preciso entendê-lo, compreendê-lo e adaptar-se, mesmo que você seja contra ele. Isto porque, é impossível viver-se a margem da sociedade. O grande problema é a falta do entendimento do sistema pela maioria.

Quando se tem o conhecimento que, programas de “reality shows” são grandes instrumentos de alienação, não há mal nenhum assisti-los. Inclusive, muitas vezes, este tipo de atração televisiva é usado como ferramenta de estudo do comportamento humano.

Caso o questionamento seja o por quê da minha inscrição e participação na entrevista de seleção do BBB 10, a resposta é muito simples: Quem aqui não gostaria de entrar de férias, ficar em uma casa onde todas as suas necessidades são atendidas, faturar por isso, e ainda ter a possibilidade de ganhar R$ 1,5 milhão? Rs....

Esperto é quem participa, “burro” é quem financia!

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sinceras desculpas

De Luís André Gasperino

Desculpa por causar decepção
Desculpa por causar frustração
Desculpa por ser quem sou
Desculpa por te causar dor

Desculpa por te fazer rezar
Desculpa por te chatear
Desculpa por te cansar
Desculpa por te fazer pensar

Desculpa por criar falsas expectativas
Desculpa por viver em meio às mentiras
Desculpa pela preocupação
Desculpa pela inquietação

Desculpa pelo fardo que carregas
Desculpa pelas mancadas
Desculpa por te fazer sofrer
Desculpa por te fazer querer

Desculpa por te questionar
Desculpa por te idolatrar
Desculpa por entrar em sua vida
Desculpa por te causar feridas

Desculpas por te querer bem
Desculpa por ser um refém
Desculpa em auto me destruir
Desculpa por querer-te feliz

Desculpa por te ferir
Desculpa por me ouvir
Desculpa pela minha fraqueza
Desculpa pela minha franqueza

Desculpa por tudo
Desculpa por ser sujo
Desculpa pela sinceridade
Desculpa pela infantilidade

Desculpa pelos meus erros
Desculpa pelos meus acertos
Desculpa por ser diferente
Desculpa pela minha gente

Desculpa em não querer mais
Desculpa em não ser capaz
Desculpa por fraquejar
E, desculpa, principalmente, por te amar...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Cara valente

De Marcelo Camelo


Não, ele não vai mais dobrar
Pode até se acostumar
Ele vai viver sozinho
Desaprendeu a dividir

Foi escolher o mau-me-quer
Entre o amor de uma mulher
E as certezas do caminho
Ele não pôde se entregar
E agora vai ter de pagar
Com o coração

Olha lá
Ele não é feliz
Sempre diz
Que é do tipo cara valente

Mas, veja só
A gente sabe
Esse humor é coisa de um rapaz
Que sem ter proteção
Foi se esconder atrás
Da cara de vilão

Então, não faz assim, rapaz
Não bota esse cartaz
A gente não cai, não

Ê! Ê!
Ele não é de nada
Oiá!!!
Essa cara amarrada
É só
Um jeito de viver na pior
Ê! Ê!
Ele não é de nada
Oiá!!!
Essa cara amarrada
É só
Um jeito de viver nesse mundo de mágoas