
De Luís André Gasperino
O morto está morto. Há 28 anos, em 22 de agosto de 1981, calava-se, precocemente, a voz de Glauber Rocha, um dos mais geniais e, genioso cineasta, ator e escritor, que o Brasil já conheceu. Um indignado, que pecava pelos seus excessos, mas que revolucionou o cinema novo brasileiro.
Filho de Adamastor Bráulio Silva Rocha e de Lúcia Mendes de Andrade Rocha, Glauber nasceu na cidade de Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia. Foi criado e alfabetizado pela mãe. Em 1947, mudou-se com a família para Salvador, onde seguiu os estudos no Colégio 2 de Julho. Ali, escrevendo e atuando em peças teatrais, seu talento e vocação foram revelados para as artes performativas. Participou em programas de rádio, grupos de teatro e cinema amadores.
O Pátio, seu primeiro filme, foi gravado em 1959, ao mesmo tempo em que ingressou na Faculdade de Direito da Bahia. Da faculdade foi o seu namoro e casamento com a atriz, Helena Ignez, produtora do primeiro filme do cineasta. “Eu conheci Glauber pelo sorriso, era um sorriso irônico e muito pessoal. Fiquei encantada. Juntos, fizemos o Pátio, primeiro filme de ambos”, disse a atriz.
Helena não polpa elogios para falar de seu antigo amor. “Glauber resumiu tudo de brilho, de inteligência, de charme, e de loucura também”, ponderou.
Sempre controvertido, escreveu e pensou cinema. Queria uma arte engajada ao pensamento e pregava uma nova estética, uma revisão crítica da realidade. Por essa razão, como conta o antropólogo Darcy Ribeiro, Glauber se consumia em seu próprio fogo. “Uma vez, Glauber passou uma manhã abraçado comigo e chorando compulsivamente. Glauber chorava a dor de todos os brasileiros, ele chorava as crianças com fome, chorava esse país que não deu certo, chorava a brutalidade, chorava a estupidez, a mediocridade, a tortura, ele não suportava e chorava. Os filmes de Glauber são isso, essa indignação”,
Para o articulista e cineasta Arnaldo Jabor, nada era normal perto de Glauber, “Ele conseguia criar um clima de excepcionalidade, um clima épico. Nada era simples para ele”, completou.
Jabor lembra com saudade do amigo. “Toda semana lembro dele, é uma pena não tinha que ter morrido. Morreu numa mistura de herói com otário”, disse emocionado.
Entre os filmes de maiores sucesso do cineasta estão Deus e o Diabo na terra do sol, indicado ao Festival de Cannes, e Terra em transe, que tornou-se reconhecido, conquistando o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes, o Prêmio Luis Buñuel na Espanha e o Golfinho de Ouro de melhor filme do ano, no Rio de Janeiro. Outro filme premiado de Glauber foi O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, prêmio de melhor direção no Festival de Cannes e, outra vez, o Prêmio Luiz Buñuel na Espanha.
Profeticamente, Glauber Rocha, segundo amigos, costumava dizer que era a própria encarnação de Castro Alves, e se o poeta morreu aos 24 anos, ele morreria aos 42. De fato, Glauber faleceu aos 42 anos, vítima de septicemia, ou como foi declarado no atestado de óbito, de choque bacteriano, provocado por broncopneumonia que o atacava há mais de um mês, na Clínica Bambina, no Rio de Janeiro, depois de ter sido transferido de um hospital de Lisboa, capital de Portugal, onde permaneceu 18 dias internado.

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